Prof. Sérgio Costa

A clínica vazia diante de uma sociedade adoecida.

Professor Sérgio Costa

Há um paradoxo que precisa ser enfrentado com seriedade: vivemos em uma sociedade atravessada pela angústia, pela solidão, pelo esgotamento e pela ruptura dos vínculos, enquanto muitos profissionais recém-formados permanecem com suas clínicas vazias. De um lado, milhões de pessoas necessitam de cuidado. De outro, analistas preparados para escutar não conseguem ser vistos, reconhecidos ou procurados.

A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 estimou que 16,3 milhões de adultos brasileiros já haviam recebido diagnóstico de depressão. Entretanto, apenas 52,8% receberam assistência médica no período de um ano e somente 18,9% faziam psicoterapia. Outro estudo, elaborado a partir dos dados nacionais, concluiu que mais de 70% dos adultos com depressão não recebiam cuidado. Esses números não descrevem apenas uma deficiência estatística. Eles revelam pessoas sofrendo sem encontrar uma porta de entrada para o tratamento.

Em termos psicanalíticos, o sofrimento não se transforma automaticamente em demanda de análise. Uma pessoa pode estar angustiada, desorientada e até perceber que precisa de ajuda, mas ainda assim não procurar um profissional. Entre o reconhecimento do sofrimento e o início do tratamento existem a vergonha, o preconceito, o medo de ser julgado, a dificuldade financeira, a desinformação e, principalmente, a ausência de alguém que lhe transmita confiança.

Esse ponto exige que examinemos também o outro lado da questão. Concluir uma formação não produz automaticamente presença profissional. O diploma ou certificado confirma um percurso de estudos, mas não apresenta o analista à sociedade. Para ser encontrado, o profissional precisa circular, comunicar-se, participar de redes, construir interlocução e aprender a falar sobre o sofrimento humano em uma linguagem compreensível. Não se trata de vulgarizar a psicanálise, mas de criar pontes entre o conhecimento teórico e a vida concreta das pessoas.

O silêncio das instituições

É nesse momento que as sociedades e instituições psicanalíticas deveriam desempenhar uma função decisiva. Uma instituição de formação não deveria limitar-se a transmitir teoria, cobrar mensalidades, aplicar avaliações e entregar certificados. Sua responsabilidade simbólica e social inclui acompanhar a passagem do estudante para a prática clínica, oferecer espaços de supervisão, estimular projetos comunitários, construir redes de encaminhamento e criar oportunidades para que os novos profissionais sejam conhecidos.

Não afirmo que todas as instituições ajam da mesma maneira. Existem sociedades comprometidas com a formação continuada e com a abertura de espaços. Contudo, também encontramos estruturas fechadas, hierarquizadas e pouco dispostas à interlocução. Em alguns ambientes, quem alcançou reconhecimento passa a defender seu território como propriedade particular. O profissional que chega deixa de ser percebido como alguém que pode ampliar o campo e passa a ser tratado como concorrente.

Surge, então, o narcisismo profissional. Ele aparece quando o saber deixa de servir à escuta e passa a sustentar posições de prestígio. Manifesta-se na necessidade de monopolizar a palavra, desqualificar formações diferentes, dificultar a entrada de novos analistas e preservar pequenos círculos de reconhecimento. A instituição, que deveria favorecer transmissão e pertencimento, transforma-se em instrumento de distinção e poder.

A psicanálise não está livre daquilo que estuda. Rivalidade, inveja, idealização, identificação, disputa por autoridade e necessidade de reconhecimento também atravessam seus grupos. Negar esses movimentos apenas os torna mais fortes. Uma sociedade psicanalítica madura não é aquela que se declara imune ao conflito, mas aquela que consegue analisá-lo e impedir que ele bloqueie a renovação do campo.

Um alerta desde 1995

Venho alertando sobre esse problema desde 1995. Naquela época, ainda não existiam redes sociais como hoje, mas já era visível a distância entre as instituições, os profissionais que iniciavam sua trajetória e a população que necessitava de escuta. Mudaram os meios de comunicação, multiplicaram-se os cursos e ampliou-se a presença pública da saúde mental. Entretanto, a dificuldade de interlocução permanece.

Muitos profissionais ainda esperam ser encontrados apenas porque concluíram uma formação. Ao mesmo tempo, muitas instituições continuam formando pessoas sem ajudá-las a construir uma presença clínica. O resultado é cruel: a sociedade sofre sem atendimento, enquanto profissionais capacitados experimentam isolamento, insegurança e desânimo.

Romper esse ciclo exige responsabilidade compartilhada. As instituições precisam abrir caminhos, promover encontros, criar cadastros de profissionais, fortalecer a supervisão, desenvolver clínicas sociais e estimular a participação pública. Os profissionais, por sua vez, precisam abandonar a expectativa passiva de que serão espontaneamente descobertos. Presença clínica é construída com ética, constância, clareza e participação na comunidade.

Dar visibilidade ao próprio trabalho não significa transformar a clínica em mercadoria. Significa permitir que alguém em sofrimento saiba que existe um profissional disponível para escutá-lo. A comunicação responsável não promete cura, não explora a fragilidade e não banaliza conceitos. Ela apresenta uma possibilidade de cuidado.

A clínica vazia diante de uma sociedade adoecida não é apenas um problema individual do profissional. É um sintoma institucional e social. Se existem pessoas procurando sentido e profissionais preparados para escutar, nossa tarefa é construir o caminho que permita esse encontro. A psicanálise permanecerá viva não pela conservação de territórios, mas por sua capacidade de transmitir, acolher, renovar-se e chegar a quem necessita dela.

Fontes públicas

IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde 2019

Mrejen, Hone e Rocha. Estudo sobre depressão e falta de tratamento no Brasil

18 de julho de 2026

Professor Sérgio Costa

Presidente e Fundador do NEPP

Membro da Sociedade Latino-Americana de Psicanálise.

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